2 de março de 2021
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“Todos os nossos parentes estão doentes por culpa de vocês”, protestaram Hilda Kanamari, 57 anos, e Noemia Bohomi Kanamari, 75, ao receberem a equipe da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), órgão do Ministério da Saúde.

No dia 20 de junho, os profissionais chegaram à aldeia São Luís, no Médio Rio Javari, na Terra Indígena Vale do Javari, no Amazonas, fronteira com o Peru. As duas mulheres se dirigiram especialmente ao titular da pasta, o coronel da reserva do Exército, Robson Santos da Silva, falando na língua Kanamari. 

Em vídeos obtidos com exclusividade pela agência Amazônia Real, os Kanamari filmam a chegada da equipe da Sesai. Em um deles, Hilda e Noemia reclamam da demora e culpam os profissionais de saúde pelo contágio. “Vocês brancos não prestam, vocês são doentes. Teus parentes trouxeram a doença para nos contaminar”, disseram as duas indígenas.

Na maloca do Centro Cultural da aldeia, o cacique Mauro Kanamari, que também foi infectado, inquiriu Robson Silva. “Eu vi cada uma dessas pessoas doentes e ninguém estava aqui para ajudar. A equipe de saúde que chegou não fez exame em todo mundo. Hoje, se fizessem exame em todo mundo, todos os Karamari estariam com o coronavírus. Mas não fizeram. Só atenderam os pacientes que estavam mal mesmo”, diz o cacique, se dirigindo ao secretário. 

A viagem do titular da Sesai faz parte de ações do governo de combate à Covid-19 nas terras indígenas, estratégia questionada pelas lideranças das etnias. A intenção de Robson Santos da Silva, segundo ele próprio, era apenas deixar os equipamentos e insumos em São Luís e retornar para o helicóptero. Ele foi até a aldeia em helicóptero da Força Aérea Brasileira. Dias depois da ida a São Luís, ele fez parte de uma comitiva bem mais vultosa que foi até Roraima, visitando o território Yanomami.

Lideranças Kanamari afirmaram que não souberam oficialmente sobre a ida de Robson Santos da Silva e sua equipe à aldeia São Luís. Também não foram informados sobre medidas para evitar a infecção e se os funcionários passaram por isolamento. A visita do coronel da reserva foi registrada pelos indígenas em vídeo por aparelho celular carregado por um gerador de energia que funciona por algumas horas. Sem acesso à internet na aldeia, somente na semana passada é que os vídeos ficaram disponíveis.  “Faça um bom trabalho. Divulgue o que aconteceu”, pediu Adelson Korá Kanamari à Amazônia Real.

“Soubemos em cima da hora que ele iria. Ele só queria chegar e ir embora. Mas fizemos ele ficar para nos ouvir”, contou ele, que estava na aldeia até a semana passada, quando retornou para a sede de Atalaia do Norte (1.136 quilômetros de Manaus), onde fica a TI Vale do Javari. 

Korá, que também foi infectado pelo coronavírus, produziu também um vídeo-reportagem sobre a rotina da aldeia nos dias em que infecção abateu toda a aldeia. “Os parentes tentaram fugir dessa doença e não conseguiram. Todo mundo já estava infectado. Era um levantando e outro caindo. A aldeia ficou em completo silêncio. A força da aldeia morreu”, lembrou.

Segundo Korá, a equipe da Distrito Sanitário Indígena do Vale do Javari (Dsei) que estava em São Luís, lugar que funciona como polo-base para atender outras aldeias do Médio Javari, teve dificuldade de lidar com o atendimento, por falta de experiência. “Eles estavam de mãos atadas e não sabiam como agir. Queriam fazer um trabalho como se faz no hospital. Diziam: ‘vamos isolar’, ‘tem que usar máscara’. Isso numa aldeia onde todos ficam juntos. Aí complicou tudo”, disse Korá Kanamari.

O secretário da Sesai procurou se explicar e prometeu que vai estruturar o polo-base de saúde de São Luís. Em uma breve fala, também culpou a imprensa e as pessoas que falam pelos indígenas por, segundo o militar, contar mentiras sobre a propagação da doença nas aldeias indígenas. Robson Santos da Silva assumiu o órgão em fevereiro deste ano.

“Infelizmente, a mentira prevaleceu em alguns lugares. Essa mentira diz que quem está contaminando somos nós, da Saúde, e as Forças Armadas. E vocês sabem que não é assim. Estamos aqui para lutar lado a lado. Muita gente que se apossa da voz dos indígenas, vai mentir. Quando você liga a televisão você vê absurdos”, afirmou ele. “Peço desculpas por não ter avisado [de que iria chegar]. Mas a gente só ia baixar, descarregar e voltar”, admitiu.

Na ida a São Luís, a equipe da Sesai levou equipamentos como geradores de energia, radiofonia e medicamentos. A maior parte destes insumos foi resultado de campanhas de diferentes organizações, entre elas a Expedicionários da Saúde.  “Nossa ideia é mudar a política de saúde dos povos indígenas. Faço por amor ao próximo. Estamos salvando vidas”, disse o secretário.

Korá Kanamari diz que, agora, todos na aldeia São Luís estão recuperados da Covid-19 e parte dos insumos que chegaram junto com a Sesai estão sem uso. “O apoio chegou atrasado. Tem muito material parado lá. Deveriam ter pensado antes, poderiam ter tomado medidas conversando com os indígenas. Não decidir de cima para baixo”, afirmou.

Redação Redação

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